A pressão por produtividade, a sobrecarga e o excesso de conexão, chamado de hiperconexão, presentes no dia a dia, são fatores que vêm tornando comum a dificuldade para descansar o corpo e, principalmente, a mente. A geração dos millennials, nascidos entre as décadas de 1980 e 1990 e já criada com a ideia de que esforço e dedicação seriam suficientes para alcançar estabilidade e sucesso, está entre as mais afetadas.

Segundo um levantamento da revista norte-americana Fortune, cerca de 66% dos millennials relatam níveis moderados ou altos de esgotamento profissional, o que pode resultar em burnout. De acordo com os professores Marcos Neli e Vera Navarro, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, a hiperconexão e a precarização do trabalho, muitas vezes marcadas por vínculos instáveis e sobrecarga, são grandes motivadores desse esgotamento.

“Acredito que a dificuldade de descansar a mente esteja ligada à extrema exposição às telas e aos estímulos virtuais. As pessoas vivem uma preocupação constante de se mostrar presentes e produtivas”, explica Neli.

Esse cenário de hiperconexão e cobrança constante também se reflete nas relações de trabalho. Jornadas extensas, metas elevadas e a insegurança profissional ajudam a ampliar os impactos do esgotamento mental na rotina dos trabalhadores.

“A intensificação e a precarização das relações de trabalho têm produzido impactos profundos na vida e na saúde dos trabalhadores. Com jornadas mais longas, metas abusivas e insegurança no emprego, cresce o adoecimento mental, a ansiedade, a depressão e a síndrome de burnout”, completa Vera.

Segundo Neli, a alta conectividade tecnológica tem contribuído para uma padronização de comportamentos, fazendo com que até os momentos de lazer passem a seguir a lógica da produtividade. “Hoje o lazer também toma a configuração de negócio, de algo que estou fazendo para me aprimorar, seja para o trabalho ou como indivíduo”, afirma.

A dificuldade de separar a vida pessoal do trabalho é outro fator que causa a alta nos números de esgotamento mental. Em um contexto de cobrança constante por desempenho, até os momentos de descanso passaram a carregar a pressão por exposição e validação social. “As pessoas não conseguem mais usufruir do tempo livre para algo que não precise ser postado”, diz o professor.

Essa necessidade constante de mostrar experiências e compartilhar uma rotina produtiva nas redes sociais também reflete as transformações nas relações de trabalho. A instabilidade profissional e a competitividade aumentam a pressão para demonstrar atualização constante e capacidade de adaptação às exigências do mercado.

“Não há mais garantia da empregabilidade e eu tenho que correr atrás para me manter empregado. A autoexposição e a percepção de que sou uma pessoa antenada a esse mundo tecnológico fazem parte dessa forma de me tornar alguém desejado”, explica Neli.

De acordo com Vera, o enfraquecimento das formas de proteção ao trabalhador também amplia a sensação de insegurança nas relações de trabalho. “O trabalho, que deveria garantir dignidade e cidadania, passa a ser também fonte de insegurança, adoecimento e sofrimento cotidiano. O enfraquecimento da Justiça do Trabalho e das organizações sindicais deixa milhões de trabalhadores expostos a relações cada vez mais desiguais.”

Esse cenário traz impactos diretos na saúde física e mental dos trabalhadores. Jornadas mais longas, metas abusivas e vínculos instáveis impulsionam o aumento de casos de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e outros quadros de sofrimento psíquico relacionados ao trabalho.

Em meio à rotina acelerada e à pressão constante por desempenho, especialistas alertam que os limites entre o cansaço cotidiano e um quadro mais grave de esgotamento têm se tornado cada vez menos perceptíveis.

“As pessoas não conseguem desligar do trabalho e continuam pensando na rotina profissional mesmo em casa. Muitas vezes, o burnout só é percebido quando surgem crises mais graves, como depressão, síndrome do pânico ou outros sinais de esgotamento mental”, finaliza o professor.

Luis Martins é estagiário sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares.

DM TEM DEBATE

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