A disputa presidencial transcende a alternância de poder. Para sindicatos, movimentos sociais e organizações populares, o pleito de 2026 poderá definir o futuro das políticas públicas, dos direitos sociais e da capacidade de o Estado enfrentar desigualdades históricas.
Marcos Verlaine*
As eleições presidenciais de 2026 tendem a ser uma das mais decisivas desde a redemocratização. Não se trata apenas de escolher entre 2 candidatos ou 2 partidos. A disputa opõe projetos distintos de Estado, de sociedade e de desenvolvimento.
De um lado, campo que, com todas as suas limitações e contradições, defende a ampliação das políticas sociais, o fortalecimento da educação pública, da ciência, da negociação coletiva e do papel do Estado como indutor do desenvolvimento.
De outro, campo político que, durante o governo Jair Bolsonaro (2019-2022), implementou agenda marcada por liberalização econômica, forte polarização política, confrontos frequentes com instituições democráticas e mudanças em áreas como meio ambiente, cultura, educação e política de armas.
Para o movimento sindical, a questão central não é partidária. É estratégica. A história demonstra que governos produzem consequências concretas sobre a vida dos trabalhadores.
O Brasil que não deve ser esquecido
A memória política brasileira costuma ser curta. Mas os dados permanecem. E podem ser verificados. Vamos então.
Durante a pandemia de covid-19, o Brasil ultrapassou 700 mil mortes registradas. Pesquisas acadêmicas, relatórios da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia no Senado e estudos publicados em revistas científicas apontaram que parte das decisões adotadas pelo governo federal — incluindo a defesa de medicamentos sem eficácia comprovada, críticas às medidas de isolamento e demora na aquisição inicial de vacinas — tornou-se objeto de intenso debate público e institucional.
Independentemente das divergências políticas, ficou evidente o desgaste da relação entre governo federal e parte significativa da comunidade científica brasileira.
Instituições como Fiocruz, universidades federais e sociedades científicas passaram anos respondendo a ataques retóricos, desinformação e questionamentos públicos dirigidos à produção científica nacional.
Não se tratava apenas de conflito de opiniões. Tratava-se, pois, da relação entre conhecimento científico e formulação de políticas públicas.
Universidades sob
permanente ataque
Entre 2019 e 2022, universidades federais e institutos de pesquisa enfrentaram sucessivos bloqueios orçamentários. Diversas instituições anunciaram dificuldades para manter o funcionamento básico, pagamento de contratos, bolsas de pesquisa e investimentos em laboratórios.
Ao mesmo tempo, consolidou-se discurso político que associava universidades públicas a espaços de “doutrinação ideológica”, frequentemente colocando professores e pesquisadores no centro da disputa política nacional. Até hoje isso ocorre. Essa prática deitou raízes.
A ciência brasileira perdeu recursos. Pesquisadores emigraram.
Laboratórios interromperam projetos. Bolsas deixaram de acompanhar a inflação durante anos. O impacto dessa política ainda repercute sobre a capacidade nacional de produzir inovação.
Meio ambiente e
isolamento internacional
O Brasil também viveu período de forte desgaste ambiental. Entre 2019 e 2022, o desmatamento da Amazônia Legal atingiu os maiores níveis em mais de 1 década, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
O País passou a enfrentar críticas de governos europeus, organismos multilaterais e investidores internacionais. A política ambiental deixou de ser apenas questão ecológica. Transformou-se em variável econômica.
Exportações, acordos comerciais e investimentos passaram a considerar o desempenho ambiental brasileiro como critério relevante.
Armas e segurança pública
Outra marca daquele período foi a ampla flexibilização do acesso às armas de fogo. Diversos decretos ampliaram o número de armas permitidas para cidadãos, colecionadores, caçadores e atiradores esportivos. O número de registros de CAC cresceu de forma expressiva e assustadora. Isso teve consequências
Especialistas em segurança pública divergem sobre os efeitos dessa política.
Enquanto defensores sustentam que essa fortaleceu o direito à legítima defesa, críticos argumentam que o aumento da circulação de armas elevou riscos de desvios para organizações criminosas e acidentes domésticos, além de dificultar o controle estatal.
O debate permanece aberto. Mas os números demonstram que houve mudança significativa na política armamentista brasileira.
Trabalho e direitos sociais
Para os sindicatos, talvez nenhum tema seja tão sensível quanto a visão de Estado presente em diferentes projetos políticos.
O campo bolsonarista mantém forte interlocução com setores que defendem menor intervenção estatal nas relações de trabalho, ampliação da terceirização, flexibilização de normas trabalhistas — leia-se, mais precarização — e redução do papel da negociação coletiva. Eles defendem negociação direta entre patrão e empregado, sem mediação sindical.
É a famosa negociação “entre a corda e o pescoço”. Quem coloca essa corda no pescoço do trabalhador é o patrão, é o dono do negócio. É o mercado. É o capital.
Em contrapartida, o atual governo apoiou medidas como a valorização do salário mínimo acima da inflação, a retomada da política de reajuste real, a ampliação do diálogo tripartite, o envio ao Congresso da proposta de redução da jornada de trabalho — PEC do fim da escala 6x1, aprovada pela Câmara e em análise no Senado —, e programas orientados à recuperação da renda.
Nada disso elimina problemas históricos do mercado de trabalho brasileiro. Mas revela prioridades distintas. O atual governo é neodesenvolvimentista, enquanto o anterior guiou-se pelo neoliberalismo mais radicalizado. Novo governo bolsonarista, não terá distinção do que foi o governo anterior ao atual. Tudo indica que será pior.
Cultura e diversidade
Entre 2019 e 2022, políticas culturais sofreram forte reestruturação. A extinção do Ministério da Cultura, posteriormente recriado no atual governo, simbolizou mudança de orientação.
Projetos ligados à diversidade, direitos humanos e inclusão perderam espaço no financiamento público. A retórica da chamada “guerra cultural” tornou-se parte permanente da agenda governamental.
O resultado foi a intensificação da polarização também no campo artístico.
Democracia sob tensão
Talvez o aspecto mais sensível daquele período tenha sido a relação entre Executivo e instituições democráticas.
Conflitos frequentes com o STF, ataques ao sistema eleitoral, críticas reiteradas às urnas eletrônicas — sem apresentação de provas de fraude — e os acontecimentos que culminaram nos ataques de 8 de janeiro de 2023 deixaram marcas profundas na política brasileira.
Independentemente das responsabilidades individuais posteriormente atribuídas pela Justiça, consolidou-se ambiente de elevada tensão institucional.
A confiança entre os Poderes foi profundamente abalada.
Desafio dos movimentos sociais
É justamente por isso que sindicatos, entidades estudantis, organizações populares e movimentos sociais não podem encarar 2026 apenas como mais uma eleição. Essa vai ser a eleição e a próxima também. Enquanto a democracia e o Estado de Direito estiverem sob ameaça da extrema-direita, leia-se, do bolsonarismo, a guarda não deve ser abaixada e o perigo não deve ser minimizado.
Esse debate precisa ultrapassar nomes e personalidades. A questão central é qual modelo de Estado se pretende construir. Isso exige memória. Exige análise crítica. Exige participação efetiva e orgânica.
Também exige reconhecer que governos progressistas enfrentam limitações, cometem erros e devem ser permanentemente cobrados por maior eficiência, transparência e capacidade de entregar resultados.
Mas há diferenças substantivas entre projetos políticos quando se observam prioridades em educação, ciência, proteção ambiental, diálogo institucional, valorização do serviço público e políticas sociais.
Ignorar essas diferenças seria abrir mão da própria experiência recente da sociedade brasileira.
Mais do que disputa eleitoral
O Brasil chegará às urnas em outubro de 2026 com desemprego menor do que no período pós-pandemia, inflação relativamente controlada em comparação ao pico de 2022, crescimento da renda média e recuperação parcial de programas sociais. Esses indicadores, por si só, não encerram o debate sobre os rumos do País, nem significam que problemas estruturais tenham sido resolvidos.
A decisão dos eleitores envolverá múltiplos fatores: economia, segurança pública, custo de vida, qualidade dos serviços públicos e confiança nas instituições.
Para o movimento sindical e para os movimentos sociais, contudo, a principal lição dos últimos anos talvez seja outra: direitos conquistados não são permanentes, políticas públicas podem ser ampliadas ou reduzidas, e escolhas eleitorais moldam o ambiente em que trabalhadores, universidades, organizações científicas e entidades da sociedade civil atuarão.
É por isso que 2026 tende a representar mais do que alternância de governo. Representará escolha sobre quais prioridades deverão orientar o Estado brasileiro nos anos seguintes. A agenda está posta.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
DIAP