Número de trabalhadores que receberam auxílio do INSS por incapacidade temporária devido à ludopatia passou de 67, em 2023, para 363, em 2025; avanço ocorre após expansão do mercado de apostas
O número de trabalhadores afastados por incapacidade temporária em razão do vício em apostas cresceu 441% entre 2023 e 2025, período que coincide com a regulamentação do mercado de bets no Brasil. Dados do Ministério do Trabalho mostram que 67 pessoas receberam o benefício do INSS por ludopatia em 2023. Em 2024, primeiro ano de vigência das novas regras, foram 136 casos. Em 2025, o número chegou a 363.
O levantamento foi realizado pela Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho, com base em informações dos ministérios do Trabalho e da Previdência Social. O benefício é concedido quando a dependência de jogos é reconhecida em perícia médica e impede temporariamente o segurado de exercer sua atividade profissional.
A ludopatia é classificada pela Organização Mundial da Saúde como transtorno mental. Os dados, embora ainda representem um universo restrito de trabalhadores que conseguem acessar o benefício, indicam a dimensão de um problema associado à rápida expansão das apostas online.
Em 25 de setembro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou o fim da operação das bets (apostas esportivas e jogos online) por meio de uma Medida Provisória.
Regulamentação e crescimento dos afastamentos
As apostas de quota fixa foram regulamentadas no fim de 2023, abrindo espaço para a expansão da publicidade e para a entrada de novos operadores no mercado. No ano seguinte, os afastamentos relacionados à ludopatia mais que dobraram, passando de 67 para 136.
O número voltou a crescer de forma expressiva em 2025, quando alcançou 363 benefícios. O estudo do Ministério do Trabalho aponta uma associação entre a expansão do mercado regulado e o aumento dos casos registrados, mas ressalva que os dados disponíveis ainda não permitem estabelecer uma relação causal direta.
“Estes dados iniciais ainda precisam ser tomados com bastante cuidado, na medida em que representam grupos reduzidos que têm acesso a esse benefício”, afirma o levantamento. O documento, porém, destaca os problemas associados ao transtorno do jogo e defende medidas de enfrentamento.
Para Paula Montagner, subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho e autora do estudo, ainda não há elementos suficientes para afirmar que o aumento dos desligamentos decorra diretamente da dependência de apostas. Ela ressalta, entretanto, o impacto do transtorno sobre a saúde mental e financeira dos trabalhadores.
Quatro em cada dez beneficiários deixaram o emprego
O problema também aparece nos dados sobre vínculos formais de emprego. Entre os trabalhadores que receberam auxílio por incapacidade temporária relacionada à ludopatia, a parcela que teve o contrato encerrado passou de 35% em 2023 para 42,5% em 2025.
Isso significa que, no ano passado, aproximadamente quatro em cada dez beneficiários haviam deixado o emprego formal até o encerramento do ano.
A maior parte dos desligamentos — quase 70% — ocorreu por iniciativa do trabalhador ou por demissão sem justa causa. O levantamento, contudo, não permite concluir que essas saídas tenham sido provocadas diretamente pelo transtorno do jogo.
O perfil dos beneficiários também é concentrado. Sete em cada dez são homens, enquanto quase 67% têm entre 30 e 49 anos.
Ludopatia começa a chegar às relações de trabalho
O avanço dos afastamentos ocorre paralelamente ao surgimento de conflitos envolvendo apostas no ambiente profissional.
Casos analisados pela Justiça do Trabalho já envolvem trabalhadores demitidos por justa causa após utilizar recursos da empresa em apostas ou realizar jogos durante o expediente. Em situações como essas, os tribunais precisam avaliar se a conduta representa falta disciplinar ou se está relacionada a um transtorno mental que exige tratamento.
A CLT prevê, entre as hipóteses de justa causa, a prática habitual de jogos de azar. A aplicação da regra às apostas online, entretanto, depende das circunstâncias do caso e dos efeitos da conduta sobre a relação de trabalho.
O diagnóstico de ludopatia também não impede automaticamente uma demissão por justa causa. Por outro lado, a existência de uma doença mental pode ser considerada na avaliação das circunstâncias da dispensa, especialmente quando houver conhecimento do empregador sobre a condição do trabalhador.
Ainda não há jurisprudência consolidada do Tribunal Superior do Trabalho especificamente sobre a ludopatia. A discussão tende a ganhar importância à medida que aumentam os diagnósticos, os afastamentos e os conflitos trabalhistas relacionados às apostas.

Mercado movimentou centenas de bilhões
A expansão dos afastamentos ocorre em um mercado que alcançou dimensão inédita no país. Em 2025, os brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas bets, segundo dados do Ministério da Fazenda. As perdas dos apostadores chegaram a R$ 36,9 bilhões, valor que correspondeu à receita das empresas.
Até agosto de 2026, 43,8 milhões de brasileiros já haviam apostado, segundo levantamento citado pela Folha de S. Paulo.
O tamanho do mercado ampliou também o debate sobre seus impactos sociais, sobretudo o endividamento, saúde mental e relações de trabalho. Segundo estimativa divulgada pela Folha, a interrupção das apostas online pode ter liberado até R$ 40 bilhões por ano no orçamento das famílias, tomando como referência o volume de recursos perdido pelos apostadores.
Fonte: VERMELHO
https://vermelho.org.br/2026/10/20/afastamentos-do-trabalho-por-vicio-em-bets-aumentam-441/
Fonte: fetraconspar.org.br